15 de maio de 2017

A palavra de afeição



E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria de Cleofas, e Maria Madalena. Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. (João 19. 25,26)

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe” (Jo 19.25). Como seu Filho, Maria estava familiarizada com o sofrimento. Desde o princípio somos informados: 

“E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras e considerava que saudação seria esta” (Lc 1.28,29). 

Isso foi apenas o prenúncio de muitas perturbações: Gabriel tinha vindo lhe anunciar o fato da concepção milagrosa, e um momento de reflexão nos mostrará que não foi coisa fácil para Maria o se tornar a mãe do nosso Senhor dessa forma misteriosa e sem precedentes. Sem dúvida, isso trouxe, mais tarde, grande honra, mas também não pouco perigo no presente para a reputação de Maria, e não pouca prova para a sua fé. É belo observar sua quieta submissão à vontade divina: “Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1.38), foi a sua resposta. Isso foi resignação amorosa. Todavia, ela ficou “perturbada” com a Anunciação e, como dissemos, foi apenas o precursor das muitas provas e aflições.

Que aflição deve ter lhe causado quando, por não haver nenhum quarto na pousada, ela teve que deitar o seu bebê recém-nascido numa manjedoura! Que angústia deve ter sido a sua quando soube do intento de Herodes de matar a vida do seu infante! Que transtorno lhe deu ser forçada, por conta dele, a fugir para um país estrangeiro e residir por vários anos na terra do Egito! Que golpes penetrantes na sua alma devem ter sido ao ver seu Filho desprezado e rejeitado pelos homens! Que aperto no coração causava a tristeza de contemplá-lo como odiado e perseguido pela sua própria nação! E quem pode estimar o que ela experimentou enquanto permanecia ali ao pé da cruz? Se Cristo foi o homem de dores, não foi ela a mulher de dores?

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe” Jo 19.25

1. Aqui vemos o cumprimento da profecia de Simeão.

De acordo com as exigências da lei de Moisés, os pais do menino Jesus trouxeram-no ao templo para apresentá-lo ao Senhor. Então, aconteceu que o velho Simeão, que esperava pela Consolação de Israel, o tomou em seus braços e bendisse a Deus. Depois de dizer:

"Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos, luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel” (Lucas 2.29-32)

Ele se voltou para Maria e disse:

“Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel e para sinal que é contraditado (e uma espada traspassará também a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lucas 2.34, 35).

Que estranha palavra, essa! Poderia ser que dela, o maior de todos os privilégios fosse trazer a maior de todas as tristezas? Parecia a coisa mais improvável quando Simeão falou. Todavia, quão verdadeira e tragicamente veio a acontecer! Aqui na cruz essa profecia de Simeão foi cumprida.

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe” (Jo 19.25). Após os dias de sua infância e adolescência, e durante todo o ministério público de Cristo, vemos e ouvimos muito pouco de Maria. Sua vida foi vivida na obscuridade, entre as sombras. Mas agora, quando a hora suprema lhe golpeava com a agonia do seu Filho, quando o mundo rejeitava o filho do seu ventre, ela permaneceu ali, junto à cruz! Quem pode retratar adequadamente tal figura? Maria estava mais perto do madeiro cruel! Despojada de fé e esperança, frustrada e paralisada pela estranha cena, todavia, ligada com a corrente dourada de amor àquele que estava agonizando, ali ela permanece! Experimente e leia os pensamentos e as emoções do coração daquela mãe. Ó, que espada foi aquela que perfurou a sua alma então! Felicidade tal como nunca em um nascimento humano, tristeza tal como nunca em uma morte desumana.

Aqui vemos demonstrado o coração de mãe. Ela é a mãe daquele homem moribundo.

Aquele que agonizava ali sobre a cruz era o seu filho. Ela foi a primeira a beijar aquela testa agora coroada de espinhos. Ela foi a primeira a guiar aquelas mãos e pés nos seus movimentos quando bebê.

Nenhuma mãe jamais sofreu como ela. Seus discípulos podem desertá-lo, seus amigos podem esquecê-lo, sua nação pode desprezá-lo, mas sua mãe permanece ali ao pé da sua cruz. Oh, quem pode sondar ou analisar o coração da Mãe?

Quem pode mensurar aquelas horas de tristeza e sofrimento à medida que a espada atravessava lentamente a alma de Maria? Não houve nenhum pranto histérico ou efusivo. Não houve nenhuma demonstração de fraqueza feminina; nenhum clamor violento vindo de uma angústia incontrolável; nenhum desmaio. Palavra alguma de seus lábios ficou registrada por nenhum dos quatro evangelistas: ela aparentemente sofreu em vigoroso silêncio. Todavia, sua tristeza não foi menos real e aguda. Águas silenciosas penetram fundo. Ela viu aquela testa perfurada com espinhos cruéis, mas não pôde alisá-la com seu terno toque. Ela viu suas mãos perfuradas e seus pés ficarem dormentes e pálidos, mas ela não podia esfregá-los. Ela notou sua necessidade de água, mas não lhe foi permitido saciar sua sede. Ela sofreu em profunda desolação de espírito.

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe” (Jo 19.25). A multidão estava zombando; os ladrões, insultando; os sacerdotes, escarnecendo; os soldados, endurecidos e indiferentes; o Salvador, sangrando e morrendo - e ali está sua mãe contemplando a horrível zombaria. Quem ficaria maravilhado se ela desmaiasse diante de uma tal visão! Quem ficaria maravilhado se ela se afastasse de um tal espetáculo! Quem ficaria maravilhado se ela fugisse de uma tal cena!

Mas não! Ali estava ela: não se encolhe, não desmaia, e nem mesmo desaba ao chão em sua dor - ela permaneceu de pé. Sua ação e atitude são singulares. Em todos os anais da história da nossa raça não há nenhum paralelo. Que coragem transcendente! Ela permaneceu junto à cruz de Jesus - que vigor maravilhoso! Ela reprimiu sua dor, e permaneceu ali quieta. Não foi a reverência pelo Senhor que a guardou de perturbá-lo em seus últimos momentos?

“Ora, Jesus, vendo ali sua mãe e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse à sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19.26, 27)

2. Aqui vemos o homem perfeito colocando um exemplo para os filhos honrarem os seus pais.

O Senhor Jesus evidenciou sua perfeição na maneira com que cumpriu plenamente as obrigações de toda relação que ele manteve, quer para com Deus, quer para com os homens. Na cruz nós contemplamos seu terno cuidado e solicitude para com sua mãe, e nisto temos o padrão de Jesus Cristo apresentado a todos os filhos para que eles o imitem, ensinando-lhes como se portarem para com os seus pais de acordo com as leis da natureza e da graça.

As palavras que o dedo divino gravou nas duas tábuas de pedra, e que foram dadas a Moisés no Monte Sinai, nunca foram anuladas. Elas ainda estão em vigor enquanto a terra perdurar. Cada uma delas está incorporada no ensino didático do Novo Testamento. As palavras de Êxodo 20.2 são reiteradas em Efésios 6.1-3: 

“Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra”.

O mandamento para os filhos honrarem os seus pais vai muito além de uma mera obediência a essa vontade expressa, embora, certamente, inclua essa. Ele envolve amor e afeição, gratidão e respeito. Com freqüência se pensa que esse quinto mandamento é dirigido aos jovens somente. Nada pode estar mais longe da verdade. Inquestionavelmente ele se dirige a eles em primeiro lugar, pois na ordem da natureza os filhos são sempre primeiramente jovens. Mas concluir que tal mandamento perca força quando a infância é deixada para trás é não entender pelo menos metade do seu significado profundo. Como sugerido, a palavra “honra” vai além de obediência, embora essa seja seu sentido principal. No curso do tempo os filhos crescem até alcançar a virilidade, que é a idade de plena responsabilidade pessoal, a idade quando eles não mais estão debaixo do controle dos seus pais, todavia, as suas obrigações não cessaram. Eles devem aos seus pais um débito que eles nunca podem se desobrigar plenamente. O mínimo dos mínimos que podem fazer é manter os seus pais em alta estima, colocá-los no lugar de superioridade e reverenciá-los. No Exemplo perfeito encontramos tanto obediência como estima manifestadas.

O fato de que o último Adão não veio a este mundo como o primeiro Adão - em plena posse das glórias distintivas da humanidade: totalmente desenvolvido em corpo e mente - mas como um bebê, tendo que passar por todo o período da infância, é um fato de tremenda importância e valor pela luz que ele lança sobre o quinto mandamento. Durante seus primeiros anos, o menino Jesus estava sob o controle de Maria, sua mãe, e de José, seu pai legal. Isso é belamente demonstrado no segundo capítulo de Lucas.

Quando chegou aos doze anos, Jesus foi levado por eles até Jerusalém para a festa da Páscoa. O retrato apresentado é profundamente sugestivo se a devida atenção lhe for dada. No final da festa, José e Maria partem para Nazaré, acompanhados pelos seus amigos e supondo que Jesus estivesse com eles. Mas, pelo contrário, ele tinha permanecido na cidade real. Após um dia de jornada sua ausência foi descoberta. Imediatamente eles voltaram para Jerusalém, e ali o encontraram no templo. Sua mãe o interroga assim: “Quando os pais viram o menino, também ficaram admirados. E a sua mãe lhe disse: —Meu filho, por que foi que você fez isso conosco? O seu pai e eu estávamos muito aflitos procurando você” (Lc 2.48, ARA). O fato de que ela o buscara “aflita” implica fortemente que ele quase nunca havia estado fora da esfera imediata da influência dela. Não encontrá-lo por perto foi para ela uma nova e estranha experiência, e o fato de que ela, assistida por José, o buscou “aflita” revela a bela relação existente entre eles no lar em Nazaré! A resposta que Jesus deu à sua pergunta, quando corretamente entendida, também revela a honra que tinha por sua mãe. Estamos bem de acordo com o Dr. Campbell Morgan de que Cristo não a repreendeu aqui. Em grande medida, trata-se de uma questão de achar a ênfase correta: “Não sabeis?”. Como o expositor anteriormente mencionado bem o diz: “É como se ele tivesse dito: ‘Mãe, certamente você me conhece bem o suficiente para saber que nada pode me deter, senão os negócios do Pai”. A seqüência é igualmente bela, pois lemos “E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito” (Lc 2.51). E assim, por todo o tempo o Cristo de Deus deu o exemplo para os filhos obedecerem aos seus pais.

Mas há mais. Aconteceu com Cristo o mesmo que nos sucede: os anos de obediência à Maria e José terminaram, mas não os anos de “honra”. Nas últimas e terríveis horas de sua vida humana, no meio dos sofrimentos infinitos da cruz, o Senhor Jesus pensou naquela que o amava e a quem ele amava; ele pensou na sua necessidade presente e proveu para a sua necessidade futura encomendando-a aos cuidados daquele discípulo que mais profundamente entendeu o seu amor. Seu pensamento em Maria naquela hora e a honra que ele lhe deu foi uma das manifestações de sua vitória sobre a dor.

Talvez se requeira uma palavra com relação à forma com que nosso Senhor se dirige à sua mãe - “Mulher”. Até onde os registros dos quatro evangelhos vão, nunca ele a chamou de sua “Mãe”. Para nós que vivemos hoje, a razão para isso não é difícil de ser discernida. Olhando para os séculos vindouros com previsão onisciente, e vendo o horrível sistema de Mariolatria tão logo sendo erigido, ele se refreou de usar uma palavra que de alguma forma sustentasse essa idolatria - a idolatria de prestar à Maria a veneração que só a seu Filho é devida; a idolatria de adorá-la como sendo “A Mãe de Deus”.

Por duas vezes nos registros dos evangelhos, encontramos sim nosso Senhor se dirigindo a Maria como “Mulher”, e é mais digno de nota que ambas se encontram no de João, o qual, como bem sabido, apresenta a deidade de nosso Salvador. Os sinóticos o expõe em suas relações humanas; tal não se dá com o quarto evangelho. O de João apresenta Cristo como o Filho de Deus, e como tal, acima de todas as relações humanas, e daí a perfeita consonância de mostrar o Senhor Jesus aqui se dirigindo a Maria como “Mulher”.

O ato de nosso Senhor na cruz, encomendando-a aos cuidados de seu amado apóstolo, é mais bem entendido à luz da viuvez de sua mãe. Ainda que os evangelhos não registrem especificamente a sua morte, há poucas dúvidas de que José morrera antes do tempo em que o Senhor Jesus começou seu ministério público. Nada é informado sobre o marido dela após o incidente relatado em Lucas 2, quando Jesus era um menino de doze anos. Em João 2 Maria é vista nas bodas de Caná, mas não se fala nada sobre se José estava presente. Foi em vista da viuvez de Maria, portanto, e também do fato de que o tempo agora chegara, quando não mais seria um conforto para ela com sua presença corporal, que seu amoroso cuidado é manifestado.

Permita-me apenas uma breve palavra de exortação. Provavelmente tais linhas poderão ser lidas por várias pessoas adultas que ainda têm pais e mães vivos. Como você está tratando deles? Está verdadeiramente “honrando-os”? Esse exemplo de Cristo na cruz não o deixa envergonhado? Pode ser que você seja jovem e vigoroso, e seus pais, de cabelos grisalhos e doentes; mas diz o Espírito Santo: “não desprezes a tua mãe, quando vier a envelhecer” (Pv 23.22). Pode ser que você seja rico, e eles, pobres; então não deixe de prover por eles. Pode ser que eles vivam em um estado ou uma terra distante, então não seja negligente, deixando de escrever-lhes palavras de apreço e alegria que darão brilho ao término de seus dias. São obrigações sagradas: “Honra a teu pai e a tua mãe”.

A. W. Pink
“Os setes brados do Salvador sobre a cruz”
The Seven Sayings of the Saviour on the Cross (1919)
Tradução: Vanderson Moura
Disponibilizado em PDF pelo site: monergismo.com

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