12 de junho de 2017

Que darei eu ao Senhor?


O Salmo 116 faz parte da categoria dos que conhecemos como Salmos de gratidão, pois delata o reconhecimento e a profunda devoção de um homem que teve a sua oração respondida por Deus. Apesar de muitos o atribuírem a Davi, não sabemos ao certo quem o compôs, como também não conhecemos o contexto em que ele se encontrava. É um salmo muito pessoal, pois em dezenove versículos vemos a primeira pessoa do singular aparecer mais de trinta vezes.

O salmista inicia suas palavras com uma afirmação: “Amo o Senhor”, seguida de uma razão: “Porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas.” Ele prossegue no versículo dois de forma semelhante, dizendo que porque o Senhor inclinou os seus ouvidos para ele, O invocaria em toda a sua vida.

No versículo três, ele descreve como era a sua situação antes de ser atendido pelo Senhor, e em concordância com o seu relato, era um situação acentuadamente angustiante. Ele diz: 

“Laços de morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim”. 

Na poesia hebraica, morte e inferno (ou “Sheol”) são termos bem agressivos, denotando algo que agarra os vivos para desgastá-los com doenças ou esmagá-los com depressão¹; então, o salmista estava sobremodo afligido, tendo, por causa disso, caído em “tribulação e tristeza” (v.3).

Até que ele clama ao Senhor: “Ó Senhor, livra a minha alma!” A sua oração não foi um apelo silencioso, mas foram gritos de desespero, ao ver a si mesmo humanamente sem esperança, diante de algo que exauria todas as suas forças, o deixando arremessado ao chão e afundado em tristeza. Ele contemplava a morte bem próxima, e os seus olhos não conseguiam encontrar nenhum meio de escape, além do Senhor, a quem recorreu em oração. Quando todos os recursos humanos falharam, ele sabia que podia ainda recorrer aos recursos divinos, e neles encontrou o alívio para a sua alma, porque o Senhor é compassivo, justo e misericordioso, que vela pelos simples, e Ele o livrou! (vs. 5-6).

O salmista podia dizer à sua alma: “volta ao teu repouso” (v.7), porque o Senhor havia estendido sobre ele a sua bondade. Ele poderia dizer para ela:

“Repouse e fique tranquila, não se agite com temores inquietantes e receosos como fazes de vez em quando.”²

Como também: 

“Repousa em Deus. Retorna a Ele como teu repouso, e não busca esse repouso na criatura, pois ele deve ser encontrado só Nele.”²

O Senhor havia lhe dado um tríplice livramento: a sua alma da morte, os seus olhos da tristeza, e os seus pés da queda, e agora ele tem condições de andar em Sua presença, e é isso o que ele se prontifica a fazer enquanto existir (vs. 7-9).

O salmista confessa que apesar de ter estado muito aflito, ele creu, e que em sua perturbação pensou que todos os homens fossem mentirosos (v.10-11), que não havia absolutamente ninguém a quem ele podia confiar e recorrer quando precisasse. E agora, depois de liberto, ele deseja expressar de alguma forma a sua gratidão ao seu Senhor. Porém, ele se depara com a sua própria insuficiência em dar algo que possa retribuir tudo o que Ele tem feito em seu favor. Então, pergunta: 

Que darei eu ao SENHOR por todos os seus benefícios para comigo?” (v. 12).

Conforme ressalta João Calvino, ele

“Exclama, com piedosa admiração, que o volume dos benefícios de Deus era maior do que as palavras que ele poderia achar para dar vazão às gratas emoções de seu coração. A indagação é enfática: o que darei? E declara que se sentia destituído não do desejo, e sim do meio que o capacitariam a render graças a Deus [...] ‘Estou muitíssimo disposto a cumprir meu dever, mas, quando olho ao meu redor, não encontro nada que seja uma recompensa adequada.’”³

Quantos benefícios nós mesmas também temos recebido do Senhor? Se considerarmos, são mais do que somos capazes de lembrar! E assim como o salmista, não temos condições nenhuma de retribuí-Lo por eles. Então, o que podemos fazer? O que nos resta é gratidão! Demonstrar de alguma forma o quanto somos gratas Àquele de quem temos recebido todas as coisas.

O salmista iria demonstrar sua gratidão de quatro formas. Iria tomar o cálice da salvação, invocar o nome do Senhor, pagar os seus votos e oferecer sacrifícios de ações de graças (vs. 13-14, 17-19). Ele remonta a coisas que eram comuns em sua época, sob o regime da lei. Iria em direção ao templo, com uma oferta em suas mãos, para que um sacrifício fosse realizado, junto com a libação do vinho, ou seja, o cálice da salvação, e da gratidão pública ao Senhor. Além disso, ele iria invocá-Lo, e pagar todos os votos que fizera ainda quando estava em sua aflição. Ele diz duas vezes que iria cumprir os seus votos ao Senhor diante de todo o povo (vs. 14, 18), e que iria invocar o Seu nome (vs. 13, 17).

Mas, acima do sacrifício do animal, estava o sacrifício da sua vida. Ele já dissera que amava o Senhor (v.1), que invocaria o Seu nome durante toda a sua vida (v. 2) e que andaria em sua presença aqui na terra (v. 9). Então, ele estaria diante do Senhor, desfrutando de Sua presença, continuamente. Ele não agradeceria ao Senhor apenas uma vez, mas a sua vida seria uma vida de eterna gratidão. Ele não se esqueceria Dele num só momento, antes, viveria para Aquele em quem residia a sua plena felicidade.  

Não precisamos mais oferecer sacrifícios de animais ao Senhor, porque o sacrifício perfeito já foi realizado por Jesus na cruz do Calvário. Então, como demonstramos nossa gratidão ao Senhor? Vivendo inteiramente para Ele! Apresentando para Ele o sacrifício das nossas vidas, ofertadas para o serviço do Seu Reino e da Sua perfeita vontade. É isso o que o Senhor deseja dos seus servos: Que tenhamos a Ele como o mais desejável e o mais importante que tudo o mais, todos os dias.

Posteriormente, o salmista diz que era o seu servo, filho da sua serva, cuja morte é preciosa aos Seus olhos (vs. 15-16). Com isso, ele diz que a morte que tanto temia não seria para ele um mero acaso, pois o Deus que tem estima por seus servos cuidava das particularidades da sua vida; e, conforme a NVI, via com pesar a morte deles.  Se Deus não permite que nenhum pardal morra sem o seu consentimento (Mt 10:29-31), não iria também cuidar daqueles que valem muito mais do que pardais, nesse aspecto? Logo, não há o que temer.

“... quebraste as minhas cadeias.” (v. 16)

O Senhor havia quebrado as suas cadeias, e um dia, Ele quebrou todas as cadeias que nos assolavam, e nos trouxe para um lugar seguro, debaixo de suas asas. “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1:13). Nele somos libertas do pecado, do mundo e de nós mesmas. Que daremos ao Senhor por tudo isso? Tenhamos um coração grato, e vivamos para o Único que é digno de ter a nossa vida por inteiro em Suas mãos.

Thayse Fernandes
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¹ KIDNER, Derek. Salmos 73-150: Introdução e comentário. São Paulo: Mundo cristão, 1984.
² HENRY, Matthew. Comentário bíblico Antigo Testamento: Jó a Cantares de Salomão. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
³ CALVINO, João. O livro dos Salmos. Vol. 4: salmos 107-150. São José dos Campos: Fiel, 2009.

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