5 de junho de 2017

Série: Perguntas nos Salmos: “Até quando, Senhor?”


Davi se encontrava em uma situação de grande aflição quando perguntou a Deus, no Salmo 13, reiteradas vezes: “Até quando, Senhor?”. Não se sabe ao certo em que circunstâncias adversas ele teria escrito esse salmo, em que evento de sua vida teria encontrado ocasião para a expressão desse lamento. O que se sabe é o que está evidente no salmo: ele estava sofrendo e ansioso para sair de tal situação.

A pergunta “até quando, Senhor?” pode nos indicar que esse sofrimento já se estendia por um período relativamente longo, pois demonstra uma inquietação em não suportar mais viver naquele estado. Parece então que não foi o choro de uma noite, mas algo que ele estava enfrentando há algum tempo.

Ele especifica a natureza de sua inquietação nessa pergunta, em três fatores:

1. A falta de ação imediata de Deus em ajudá-lo (v. 1)

Davi indaga: 

“Até quando, Senhor? Tu te esquecerás de mim para sempre? Até quando esconderás o rosto de mim?”

Esquecer para sempre e o esconder o rosto da parte de Deus, não se refere a estados de consciência, mas dentro da linguagem hebraica antiga, significa negar ou não oferecer ajuda prática, auxílio, socorro. Davi está questionando por quanto tempo mais viverá sem ver Deus agindo em seu favor.

2. A luta em sua alma (v. 2a)

Ele continua indagando, mas agora se volta para as condições de sua própria alma: 

“Até quando relutarei dia após dia, com tristeza em meu coração?”

Ele se mostra desassossegado, perturbado, isso parece ser consequência das duas primeiras perguntas. É por não ver o agir de Deus em socorrê-lo que seu coração está inquieto, pesado de tristeza.

3. A ofensa do inimigo (v. 2b)

O último “até quando”, relacionado a seu inimigo: 

“Até quando meu inimigo se exaltará sobre mim?”

Como não sabemos em que situação Davi compôs esse salmo, não podemos definir quem seria, no contexto imediato, o inimigo a que ele se refere. O que é indicado é que a exaltação desse inimigo significava a humilhação pessoal de Davi (“se exalta sobre mim”, diz ele) e isso agravava ainda mais sua situação aflitiva.

Nos versículos 3 e 4 ele exprime uma súplica a Deus, rogando para que lhe socorra e assim ele não venha a sucumbi em suas aflições, ficando definitivamente humilhado por aqueles que almejavam a sua ruína:

“Atenta para mim, ó Senhor, meu Deus, e responde-me. Ilumina meus olhos para que eu não durma o sono da morte, para que meu inimigo não diga: Prevaleci contra ele, e meus adversários não se alegrem com a minha derrota.” (v. 3; 4).

E nos versículos 5 e 6, encerra-se o salmo; é aqui também que se encontra seu ponto mais alto, tendo iniciado nas profundezas da desolação, não vendo nenhuma ajuda Divina, se contorcendo de angústias e sendo afrontado pelo inimigo, ele passa pela súplica e daí para as altas nuvens da esperança e da confiança na ajuda Divina, que ainda que parecesse tardia chegaria com toda certeza:

“Mas eu confio na tua misericórdia; meu coração se alegra na tua salvação. Cantarei ao Senhor, porque ele me tem feito muito bem.” (v. 5; 6).

João Calvino comentando sobre esses versículos escreveu:

“...Davi, ao apressar-se com prontidão de alma a cantar os benefícios divinos, mesmo antes que os houvesse recebido, coloca o livramento, que aparentemente estava então distante, imediatamente diante de seus olhos.” (Salmos - Vol. 1; pg. 242)

Perceba que Davi começou o Salmo olhando para suas circunstâncias imediatas, mas agora ele termina olhando para o futuro, quando ele consegue contemplar o favor Divino, mesmo sem saber quando seu sofrimento atual iria acabar.

Esse salmo com seu questionamento inquietante nos traz lições preciosas, pois na vida, não poucas vezes, temos que lidar com situações que nos causam angústia, perturbação, aflição e sofrimento, ao menos por algum período. Um pai de família pode sofrer por estar desempregado; uma moça que sonha em casar pode se afligir pela solteirice prolongada; uma mulher casada que sonha em ter filho pode se ver frustrada por não conseguir engravidar. São tantas situações em que nosso coração pode encontrar o sofrimento, seja porque não sabemos lidar com os nossos sonhos, desejos, anseios e mesmo necessidades; seja porque simplesmente nos metemos em problemas ou mesmo sem procurar, o sofrimento vem bater em nossa porta, porque afinal, não temos como fugir sempre dele, uma hora ou outra estaremos diante do sofrimento, e nosso Senhor nos advertiu quanto a isso (Jo. 16.33).

Não pretendo nesse texto discorrer sobre os motivos que nos levam a períodos de sofrimento na vida, quero me deter, no entanto, a questão levantada no Salmo: Quando estamos sofrendo, mas não sabemos quando vai acabar, quando os filhos de Deus estão em angústia tão lancinante que a única coisa que conseguem dizer ao Pai é: “Até quando, Senhor?”.

Até quando terei que viver assim? Até quando tenho que suportar isso? Até quando terei que esperar? São tantos “até quando?”

Mas porque fazemos essas perguntas? Será que nós realmente precisamos saber quando as coisas acontecerão em nossa vida? Quanto durará os tempos de turbulência ou mesmo de bonança? Porque em nós há esse desejo frequente de conhecer “os tempos ou as épocas que o Pai reservou” (At. 1.7)?

Talvez o motivo porque desejamos saber o futuro, seja porque isso nos daria a sensação de que podemos controlar os acontecimentos. É como se, ao saber as inúmeras possibilidades de futuro, escolheríamos a nosso gosto, com as ações do presente, e assim tudo sempre estaria muito bem conosco. Só esquecemo-nos de algo: não temos a sabedoria infinita de Deus para saber, de fato, o que é melhor para nós, pois escolheríamos o que, muitas vezes, agradaria nossa carne e evitaríamos o que redundaria em glória eterna para Deus e felicidade infinita para nós e nossos irmãos. Só Deus conhece esses caminhos misteriosos, pois foi Ele mesmo quem os traçou.

A verdade é que nós não precisamos saber do nosso futuro nesse mundo. Perceba que nesse Salmo Davi não diz que Deus lhe respondeu os seus “até quando?”. O que ele fez foi colocar em ação a sua confiança em Deus. Nós não precisamos saber quando as coisas vão acontecer em nossa vida, Deus sabe e isso basta.

Kevin DeYoung, diz:

“Caminhamos em direção ao futuro com uma confiança que glorifica a Deus, não porque saibamos como será o porvir, mas porque Deus o sabe. Isso é tudo que precisamos saber.”

Mesmo sem Deus responder a Davi quando aquela situação teria fim, ele confiou no seu Deus, que tem todas as coisas em Suas mãos, que é infinitamente Sábio e que faz tudo pelo bem do Seu povo, mesmo que no momento não fosse capaz de entender. Assim como nós, muitas vezes, que não somos capazes de entender a muitas coisas que nos sobrevém, precisamos confiar que o Senhor está no controle de tudo e que cantaremos louvores ao Seu bendito e excelso nome, pois Ele tem nos feito muito bem, Ele é nosso Pai amoroso.

A tristeza presente não deve nos privar da esperança futura. Confiemos em Deus, pois é dele que vem o nosso socorro.


Sonaly Soares
______________
A tradução da Bíblia exposta no texto é a Almeida Século 21.

3 comentários:

  1. Palavra maravilhosa, já me senti assim perguntando a Deus o porque de algumas coisas, por mais que não compreendesse naquele momento, buscava amadurecer no futuro - hoje bem sei que os planos dEle são melhores que os meus. E agradeço por você Sonaly compartilhar conosco essa meditação, está sendo maravilhoso vir aqui. Beijos, Graça e paz.

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  2. é perceptível o quanto o Espírito Santo tem guiado esses textos... mas um para nos consolar e ajudar a ficar firmes em Deus! Que o Pai nos conserve debaixo da presença e direção Dele!

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  3. Muito bom! Precisava ler isso, amém por essa palavra. Deus abençoe.

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